Uma torta de goiabada para um chef

Torta de banana e goiabada
Eu tinha goiabada que sobrou do meu primeiro teste de receita, tinha bananas bem maduras, tinha um tempo razoável. Folheei o caderno da minha mãe e escolhi o experimento do dia: torta de goiabada com banana da Regina, uma supercozinheira que trabalhou na casa da minha avó e faz faxina como diarista no meu apartamento. Esse não era dia da Regina, portanto: eu não teria as dicas dela; eu não teria a pressão de cozinhar um prato dela na frente dela.

Antes de tudo, li a receita e, como ela era bem sucinta, liguei para minha mãe para tirar dúvidas, o que se mostrou essencial. Ela me explicou a montagem da torta (“Você vai colocando pedaços da massa na assadeira como se fizesse uma colcha de retalhos”), fez um alerta (“Com os dedos, sele bem a junção do fundo da torta com a lateral, para o líquido não vazar”) e, mais importante de tudo, descreveu a aparência da sobremesa (“Uma torta aberta, tipo quiche, com tirinhas ou cobrinhas trançadas por cima”) e assim me fez lembrar que eu AMAVA essa torta.

Dúvidas tiradas, separei os ingredientes e descobri que não tinha manteiga suficiente (o danado do doce leva mais de metade de um tablete de manteiga!). Corri ao supermercado e, quando voltei, percebi que já não tinha muito tempo para gastar na cozinha. Acelerei. Enquanto fazia o recheio de goiabada e banana, mais uma surpresa: receberíamos em casa à noite quatro amigos. Um dos convidados seria Bruno Fischetti, chef do restaurante Ramona, e meu marido anunciou que eu estava preparando uma torta. Acelerei mais.

E deu certo. Do forno que encheu a casa de cheiro de goiabada saiu uma belezinha de sobremesa. Tão simpática que eu não tive coragem de tirar do prato de metal da forma desmontável, com medo de quebrá-la antes da chegada dos convidados (desculpe, deixa para a próxima, com menos pressão).

À noite, o chef comeu, elogiou e repetiu. Disse também que lembrava uma receita da família dele, de torta massuda. Fiquei em dúvida até que ponto isso era bom (e quanto o rum Zacapa servido pelo meu marido ajudou nessa avaliação). De qualquer forma, em uma próxima torta de goiabada vou tentar deixar a massa mais fina (mas a massa estava ótima, viu?). Também pretendo aumentar a proporção de bananas para goiabada, para deixar a mistura menos doce, e talvez colocar menos recheio. Não sou da turma do doce superdoce – ou não era, porque esse blog tem colocado à prova meus conceitos).

Torta de goiabada da Regina

Ingredientes da massa
250 gramas de farinha de trigo
125 gramas de manteiga
125 gramas de açúcar
2 gemas
1 colher de sopa de fermento químico
1 pitada de sal

Ingredientes do recheio
300 gramas de goiabada (meia lata, na receita original)
1 dúzia de bananas bem maduras ou ½ dúzia de bananas verdes
(na verdade, eu usei 9 bananas maduras, pois era o que eu tinha, e me pareceu que essa receita era apropriada para aproveitar o que está sobrando em casa)

Modo de preparo da massa
Misturei todo os ingredientes com os dedos até obter uma massa quebradiça.

Modo de preparo do recheio
Coloquei o pedação de goiabada e as bananas inteiras em uma panela com um pouco de água, mas percebi que aceleraria o processo se picasse tudo, então fiz isso. Em fogo baixo, fui mexendo e acrescentando água aos poucos até que os ingredientes derreteram e viraram uma pasta grossa.

Montagem
Forrei uma forma desmontável untada com pedaços da massa como se fizesse uma colcha de retalhos bem selada. Em seguida despejei o recheio. Minha mãe geralmente fazia tirinhas com a massa para criar um trançado sobre a torta, mas eu pulei essa etapa porque estava ficando feio (se você for mais habilidoso do que eu, fica a dica). Levei ao forno quente (200ºC) por cerca de 20 minutos.

Vai ter torta de goiabada (assim espero)

Foto: O Caderno de Receitas
Parece pizza, mas é uma aspirante a torta de goiabada

A torta está no forno. A hora de buscar meu filho se aproxima. A casa foi tomada por um cheiro insuportavelmente bom de goiabada com banana. Quatro amigos confirmaram que vem aqui em casa hoje à noite – um deles é chef.

Por favor, deseje-me sorte.

Do molho de festa infantil aos hotdogs caprichados da Sanduweek

Outro dia falei aqui do meu medo diante de um patê de salsicha que consta entre as receitas do caderno da minha mãe. Não me lembro de já ter comido tal invenção e ela não se lembra de ter preparado (disse que provavelmente copiou de algum lugar e nunca chegou a colocar em prática). O que eu lembro, com prazer, é do molho de tomate que encharcava o pão do cachorro-quente lá de casa. Coisa simples, de festinha infantil, mas que me veio à memória quando fiquei sabendo que hotdog é o destaque da terceira edição da Sanduweek, na qual restaurantes, bares e lanchonetes de São Paulo preparam receitas especiais de sanduíche.

No festival, que vai de hoje até 31 de agosto, serão servidas 18 versões diferentonas de pão com salsicha ou linguiça. Fiquei interessada especialmente em cinco delas, para comer nos estabelecimentos ou tentar reproduzir em casa:

– O Aussie Dog (R$ 15) do 12 Burger e Bistrô, com salsicha frankfurt, cebola caramelizada, cheddar inglês, maionese de páprica e bacon;

Aussie Dog, do 12 Burger e Bistrô
Aussie Dog, do 12 Burger e Bistrô

– O Calabresa Artesanal (R$ 15) do Aconchego Carioca, com linguiça calabresa, cebola caramelizada na cerveja e maionese da casa;

Calabresa artesanal, do Aconchego Carioca
Calabresa artesanal, do Aconchego Carioca

– O Le Scooby Doo Be Dôo (R$ 15) do La Maison est Tombée, com pão de cerveja, salsicha artesanal de Bragança, cebola crocante, maionese de mostarda em grão e molho rústico de tomate;

Le Scooby Doo Be Dôo, do La Maison est Tombée
Le Scooby Doo Be Dôo, do La Maison est Tombée

– O Choripan (R$ 25) do The Dog Häus, com baguete, maionese de alho da casa, linguiça levemente apimentada, chimichurri e mostarda;

Choripan, do The Dog Häus
Choripan, do The Dog Häus

– O Italian (R$ 15) do Doog, com pão artesanal, salsicha frankfurter, molho de tomate pelado e grana padano.

Em tempo: vou atrás do passo-a-passo do molhinho de tomate de hotdog de festa infantil (ele não está no caderno de receitas).

Ganhei o selo Regina de qualidade

Estou metida.

Regina é uma cozinheira famosa na família da minhã mãe pela mão boa. Jantar que ela preparava enchia a gente de expectativa. Ai, o molho do assado da carne, o feijão, o cuscuz paulista! E não é que a Rê elogiou a torta de banana que eu preparei outro dia? Falou também que o doce a fez lembrar da minha avó Viquinha, com quem ela trabalhou há muitos anos. Fiquei feliz que só.

Atualmente a Rê faz faxina no meu apartamento. E cansou das panelas. Certa vez a sondei sobre trocar a diária de limpeza por uma diária de cozinha – já pensou ter a geladeira cheia daquelas comidinhas gostosas? Mas ela não quis. Disse que não tem mais paciência. Como tantas estrelas, resolveu renegar a própria arte. O que só faz crescer o mito – e ele ainda vai reaparecer neste blog, porque duas das receitas do caderno da minha mãe vieram da Rê.

Sai uma fornada de pãezinhos da dona Cordinha

Dona Cordinha sabia das coisas: pães simples e gostosos
Dona Cordinha sabia das coisas: pães simples e gostosos

Hoje eu vou jantar sozinha, provavelmente só um lanche. Boa oportunidade para testar um dos pães do caderno da minha mãe, dispostos na letra T por algum motivo que ela nunca soube explicar. A primeira receita da lista é um pão de minuto que leva banha – como não encontrei o ingrediente no supermercado, pulei para as seguintes. Acabei optando pelos pãezinhos da dona Cordinha, tanto pelo comentário “+ Fáceis” anotado e sublinhado duas vezes por minha mãe como pelo nome simpático da autora do prato.

Eu não tinha ideia de quem era a dona Cordinha. Liguei para minha mãe, em Vitória, e ela também só tinha uma vaga noção: era alguma parente ou amiga de Ponta Grossa (Paraná) da minha avó Viquinha. “Lembro que eu achava o nome engraçado, mas não cheguei a conhecê-la”, comentou minha mãe, que em seguida ligou para a família em Curitiba para esclarecer o caso: dona Cordinha era mãe de um grande amiga de minha tia avó Laura e, pelos cálculos desta, provavelmente nasceu em 1902 ou 1903.

Minha tia Laura não lembrava da receita. Nem minha mãe, que provavelmente pegou o passo-a-passo com a minha avó. “Se eu anotei que era fácil, já devo ter feito”, disse. “Eu às vezes preparava receitas assim para os lanches de domingo, quando não existiam por aí tantas padarias com pãezinhos diferentes.”

Hoje moro cercada por superpadarias e poderia comprar com facilidade de baguete a broa portuguesa, mas gostei da brincadeira de fazer meu próprio pão, torcer para dar certo e aos poucos sentir o cheiro da massa no forno se espalhar pela casa. E a receita é de fato fácil, ainda que eu tenha penado um pouco para acertar na textura. Primeiro a massa ficou muito líquida, impossível de ser moldada. Depois que acrescentei um pouco de farinha (afinal, o conceito “colheres mais para cheias” é bastante amplo), consegui uma mistura pegajosa e elástica, transformada em quatro bolotas. Quarenta minutos de forno depois, nasceram quatro pãezinhos cheirosos, de interior macio, levemente quebradiço e amanteigado. Que venham as receitas meio fáceis!

Este vai virar sanduíche no jantar
Este vai virar sanduíche no jantar

Ingredientes
16 colheres de sopa cheias de farinha de trigo (o original pedia 12 “mais para cheias”, mas eu não consegui dar liga antes de acrescentar outras 4)
2 colheres bem cheias de manteiga
1 xícara de leite
1 ovo
1 colher de sopa cheia de fermento químico
1 pitada de sal

Modo de preparo
Peneirei a farinha e misturei todos os ingredientes até conseguir uma massa elástica e um tanto pegajosa. Passei manteiga nas mãos, dividi a massa em quatro bolotas e as dispus em uma assadeira untada. Coloquei para assar em um forno pré-aquecido a 180ºC. Os pãezinhos ficaram prontos, levemente dourados, depois de 40 minutos.