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Receita de barreado da chef Ana Luiza Trajano

Barreado: carne cozida até desmanchar típica do Paraná, terra da minha mãe (foto: divulgação)
(Foto: divulgação)

Nas minhas lembranças de infância, barreado é o prato que eu não comi na viagem que eu não fiz porque fiquei de castigo. O ponto alto da temporada em Curitiba, preenchida por idas a casas de parentes da minha mãe, seria o passeio de trem até Morretes, onde provaríamos a carne cozida em uma panela de barro selada com massa de farinha. Mas nós nunca chegamos à estação. Um dia antes, na última das visitas familiares, eu e meus dois irmãos estávamos com a macaca. Corremos, pulamos, escalamos sofás, deslizamos em tapetes, rimos quando minha mãe, envergonhada diante da tia anfitriã, pedia para pararmos. O último recurso materno foi decretar que a viagem do dia seguinte estava cancelada.

Até hoje eu não fiz aquele passeio de trem. Mas já comi barreado uma porção de vezes, no Paraná e em São Paulo. Adoro os sabores concentrados e misturados pelo cozimento, a carne macia, o pirão de acompanhamento, o ritual de selar o encaixe da tampa com a panela para criar pressão.

Recentemente conheci o barreado preparado por Ana Luiza Trajano, do restaurante paulistano Brasil a Gosto, e pedi a receita para ela ( (o restaurante não está mais em funcionamento; hoje o que existe é o Instituto Brasil a Gosto). Eu não podia deixar o ano acabar sem compartilhar aqui o passo-a-passo dessa gostosura da terra da minha mãe. O prato faz parte do Menu Paraná, que a chef criou depois de uma viagem de pesquisa pelo sul do País e serve até domingo (21/12).

Barreado com pirão e banana-da-terra

Rendimento: 8 porções

Ingredientes
3 kg coxão mole
500 g bacon
4 cebolas
2 folhas de louro
5 ramos de tomilho
2 ramos de estragão
1 maço de manjericão
1 maço de manjerona
1 maço de cebolinha
1 maço de salsinha
3 ramos de sálvia
1 ramo de hortelã
Sal e pimenta-do-reino a gosto
150 ml de cachaça

800 g de farinha de mandioca

5 bananas-da-terra
300 ml de cachaça

Modo de preparo
(O barreado tradicional é cozido em uma panela de barro por 17 horas, mas no restaurante a chef o cozinha na panela de pressão por 3 horas. Depois o serve em panelas menores seladas com farinha só para manter o ritual de quebrar o lacre.)

Corte a carne em cubos grandes, corte o bacon em tiras bem finas e pique a cebola e as ervas (exceto o louro).

Forre o fundo da panela com lâminas de bacon. Em seguida, coloque uma camada de carne e, depois, uma camada generosa de cebola. Salpique as ervas. Repita a operação, ponha por último as folhas de louro e finalize com a última camada de bacon. Adicione os 150 ml de cachaça e cubra com água até o bacon de cima boiar. Cozinhe na panela de pressão por três horas em fogo médio. Depois de pronto, mexa bem para desmanchar a carne.

Para o pirão
Na hora de servir, espalhe um pouco de farinha de mandioca no fundo do prato e acrescente um pouco do caldo do barreado.

Para as bananas
Corte as frutas na transversal e as cozinhe no vapor de 300 ml de cachaça.

Banana em calda (eu só queria um docinho)

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Terminei o almoço com vontade de comer sobremesa, mas a opção disponível no restaurante (picolé) definitivamente não era o que eu queria. Horas mais tarde, quando a fissura ainda me acompanhava, decidi vasculhar o caderno de receitas da minha mãe. Lá estava a solução: doce de fruta em calda, que eu faria aproveitando umas bananas bem maduras, perto de passar do ponto. Simplíssimo. Mas consegui me enrolar.

Já fiz doce de banana outras vezes. Na panela e no forno. Com e sem açúcar. Cozido em água ou acrescentando só um tiquinho de líquido para soltar o caramelado que gruda no fundo do recipiente. Sempre fica bom, mas geralmente não é belo.

Desta vez, a ideia era seguir as instruções da receita, e ela indicavam que eu deveria “dar uma fervura na fruta primeiro”. Cortei as bananas em rodelas, joguei em água fria suficiente para cobri-las e deixei ferver. No meio do caminho, pensei: jogo fora a água?

Liguei para a minha mãe, e ela: “Ah, banana eu não teria fervido. Isso é pra outras frutas mais durinhas, como goiaba. Com banana eu só faria uma calda e jogaria as rodelas nela. Se você jogar fora a água, vai perder o gosto.”

Legal, mas as minhas nove bananas pratas já estavam na água. Resolvi deixar lá, mexendo pouco, até a água evaporar. À parte, fiz uma calda com ¼ de xícara de açúcar e um pouco da água do cozimento da banana. Só no final, juntei a banana e deixei evaporar um pouco mais.

Ruim não ficou. Mas ficou pior que outros doces de banana que já fiz. As bananas ganharam uma consistência molenga, farinhenta. Para comer de colherada, não me convenceu. Mais tarde, vou tentar servir como calda de sorvete. E da próxima vez vou seguir as instruções dadas por telefone pela minha mãe. Aí conto aqui como ficou.

Para cozinhar mais:

Minha torta é melhor que a sua

Foto: Mariana Weber

Comecei mal. Logo na primeiro teste de receita do caderno da minha mãe, produzi uma massaroca dura e queimada nada a ver com a torta de banana dourada das minhas memórias. Ficou tão ruim que joguei fora rápido, para ninguém além de mim provar o gosto do fracasso – antes tirei algumas fotos, imbuída de um espírito maso-jornalístico, mas decidi que não mereço expô-las em público, para o bem da minha auto-estima.

À noite, quando minha mãe ligou para saber como tinha ficado a torta, investigamos o que poderia ter dado errado: “Você jogou uns pedacinhos de manteiga por cima, filha?” “Não, não está na receita, mãe!” “Ah, mas eu jogava…” E a banana? “Então, filha, vi a foto que você colocou no Facebook. Tem que ser mais madura.” Eu deveria saber desse detalhe de antemão, porque ele não consta na lista de ingredientes. Assim como eu deveria imaginar que uma xícara do caderno de receitas não é necessariamente uma xícara, aquela indicada por um tracinho no meu copo medidor: ela pode ser rasa, cheia, meio cheia, bem cheia – e às vezes isso não está especificado em lugar nenhum. Vai de feeling, sabe?

Estou reclamando, mas, na verdade, eu já sabia, ou desconfiava, de tudo isso. Se resolvi seguir as receitas da minha mãe ao pé da letra, foi para ver no que dava. E deu errado. Porque no texto muito está subentendido – tanto pela confiança na experiência básica da cozinheira quanto por minha mãe já ter acompanhado ao vivo o preparo dos pratos (ou pelo menos os provado). Só que, no meu caso, isso não funciona. Vi minha mãe cozinhar alguns desses doces e salgados, mas faz tempo, e agora estamos em cidades diferentes e nos encontramos pouco. Terei que me virar com dicas por telefone e meu próprio instinto. Medo.

No caso da torta, eu estava razoavelmente tranquila porque ela é um clássico da minha infância. Eu sabia bem que resultado deveria obter – e isso, como me diria mais tarde a chef e autora de livros de cozinha Heloisa Bacellar, é essencial, mais do que estabelecer medidas exatas na receita (em breve publicarei aqui uma entrevista com a Helô). Quando a cobertura da torta no forno foi mudando direto de branco pálido para preto queimado, sem passar pelo dourado, eu logo percebi que algo estava muito errado. E provavelmente isso significava que eu estava certa quando senti falta de manteiga para tanta farinha,  fato mais tarde confirmado por minha mãe e uma tia (meu experimento com o caderno de receitas esta mobilizando a família mundo afora!).

Teoricamente, os erros estavam explicados, e eu tinha os ingredientes para fazer uma segunda tentativa na manhã seguinte, mas procrastinei por uma semana. Era um dia ensolarado quando desisti de ir a uma aula de ioga, vesti o avental e coloquei em prática as instruções do caderno somadas às dicas obtidas por telefone. E não é que a torta de banana deu certo? Sozinha em casa, provei o primeiro pedaço e aprovei a cobertura crocante salpicada por pedaços de goiabada. Ficou tão boa que senti só um tiquinho de culpa por trocar o exercício por um doce.

Foto: Mariana Weber

Agora, sim, fazia sentido a memória dessa receita como uma das minhas favoritas. Muitas vezes minha mãe a preparava quando eu tinha que levar um prato para alguma festinha. Que eu me lembre, o meu tabuleiro de doce era sempre um dos melhores, e eu sempre comia um pouco dele, por mais que estivesse cercada de novidades.

Abaixo, dou o passo a passo já modificado, com comentários e adaptações. Além da questão da manteiga, acrescentei outras informações ao original, digamos, sucinto. Se quiser, adapte. Mas duvido que fique melhor que a minha… Ops, a da minha mãe!

Ingredientes
– 1 ½ xícara de maizena
– 1 ½ xícara de açúcar
– 1 ½ xícara de farinha
– 1 colher (sopa) de açúcar aromatizado com baunilha (você pode comprar a versão industrializada, mas eu tinha e usei aqui uma versão caseira, feita com uma fava de baunilha já sem as sementes imersa em um pote de açúcar)
– 2 colheres (sopa) bem, bem cheias de manteiga para a massa, mais uma para salpicar sobre a torta montada
– 1 ovo
– Bananas bem maduras cortadas ao meio no sentido do comprimento (eu usei 8 bananas, mas depende do tamanho da fruta)
– 1 bom punhado de ameixas secas e goiabada cortada em pedacinhos (minha mãe contou que, a despeito da receita anotada, não colocava ameixas, só goiabada. Como eu só soube disso depois de ir à compras, coloquei também as ameixas e acho que funcionou bem)

Modo de preparo
Peneire e misture a maizena, a farinha e os açúcares em uma tigela grande. Acrescente o ovo e a manteiga e misture delicadamente com os dedos até obter a consistência de uma farofa bem granulada, como a de cobertura de bolo cuca. Se for preciso, acrescente manteiga.

Em uma assadeira untada, distribua uma camada de farofa, outra de banana e então pedaços de ameixas e goiabada. Novamente distribua uma camada de farofa, uma de banana e os pedaços de ameixas e goiabada. Cubra com uma camada de farofa e salpique sobre ela pedaços de manteiga.

Leve ao forno médio alto até a cobertura ficar dourada (aqui em casa, isso levou uma hora e vinte minutos).

Coma quente, assim que sair do forno. Coma fria. Coma gelada. Coma com sorvete.

Para cozinhar mais: