Categoria: Histórias

Crônicas sobre comida e histórias à mesa.

O combo todo

Combo de pipoca - Toy Story 4 (O Caderno de Receitas; montagem com foto Canva)

Não basta ir ao cinema no shopping na tarde de feriado, tem que comprar pipoca. E não basta comprar pipoca, tem que ser a que vem com o balde de chapéu de caubói. Mas, claro, não basta comprar a pipoca e o balde de caubói.

“Vale mais a pena comprar o combo”, informa a atendente preocupada com as minhas finanças.

“O combo?”

“É, pipoca, dois sucos, sorvete, chapéu-balde ou copo-bota por 55. Só o brinde é 40…” (Depois vi que era 35.)

Resisto: “O sorvete deve ter leite, meu filho não pode”.

“Pode substituir por bala. Não tem leite.”

“Eu posso, mamãe! Eu quero, mamãe!”

Eu cedo.

Momentos depois, tento equilibrar dois copos de suco doce de uva pouco menores do que o lixinho do banheiro de casa, um balde de pipoca maior do que o lixinho do banheiro de casa e o chapéu-balde que eu achava que caberia na cabeça do filho, mas não cabe e tampouco cabe na bolsa, que fica entreaberta.

O filho ajuda, milagrosamente nada se espatifa no chão e chegamos a nossos lugares sem dar banho de uva em ninguém. Mais uns 5 minutos e coloco os copos nos braços das cadeiras, enfio os canudos (biodegradáveis?) na tampa, busco um banco de criança e encaixo o filho, entrego o barril de pipoca pra ele, entucho o chapéu na bolsa, desligo o celular.

Alguns trailers, enfim o filme. Toy Story 4 é incrível, um mundo que eu gostaria que existisse ou continuasse existindo. Em 3D, dá até pra esquecer que estou num shopping metido a fino, cuidadosamente arquitetado pra enfiar a faca bem fundo nos clientes diferenciados — se eles não cortarem os pulsos antes.

Mas agora na tela está a Betty, olha ela, uma boneca de porcelana sem medo de se quebrar, e estão também o Woody, o Buzz, a Jessie, o Garfinho. Na plateia, gargalhadas e um tiquinho de choro emocionado. Ah, tudo vale a pena.

Até que o filme acaba, as luzes acesas mostram as pipocas e outras porcarias pisoteadas pelo chão, o balde está pela metade, os copos de suco ainda pesados.

O filho empaca na praça de alimentação pra comer mais pipoca e bala, o dia que estava tão bonito vai acabando. Bate uma irritação que pode ser uma bad depois do pico de açúcar e sal do combo. Pode também ser a ressaca por ter cedido ao combo todo.

Ainda tem a fila do elevador.

Telma Shiraishi: dos almoços de macarrão e sushi da infância ao Aizomê da Japan House

A chef Telma Shiraishi no Aizomê da Japan House (foto: O Caderno de Receitas)

Na minha coluna na Casa e Jardim deste mês, publico uma receita de conserva de maxixe de Telma Shiraishi, do Aizomê. Aqui no blog, além da receita, compartilho trechos da entrevista com a chef. Na conversa, ela me contou sobre seu mergulho nas raízes nipo-brasileiras para desenvolver uma cozinha japonesa autêntica e autoral, com ingredientes locais — que foram parar inclusive nas marmitas da princesa Mako do Japão em visita ao Brasil.

Neta de imigrantes, Telma chegou à gastronomia depois de tentar a medicina, a moda e publicidade. Acabou se tornando uma embaixadora da culinária do Japão. No sentido figurado e no literal. Desde 2018 é responsável por banquetes e recepções do consulado japonês em São Paulo. Em março deste ano, recebeu do governo japonês o título de Embaixadora da Boa Vontade da Difusão da Culinária Japonesa. E agora em abril inaugurou a segunda unidade do Aizomê, dentro da Japan House, centro cultural na avenida Paulista — lá sua missão é mostrar para mais gente que vale a pena conhecer a comida japonesa além do sushi de salmão.

Comida da infância

“Meus avós são imigrantes japoneses, meus pais já nasceram aqui. No final de semana se faziam mesas enormes, de 20, 30 pessoas, na casa de um avô ou de outro. Sempre tinha muita mistura: podia ter sashimis e churrasco, podia ter macarronada com sushi.  E sempre nesse tom de celebração, de encontro, de estar todo mundo junto, de partilhar.

Lembro da minha avó paterna supercontente e emocionada porque tinha conseguido ingredientes para fazer sushi. Naquela  época era muito difícil conseguir um bom arroz, uma alga nori. Alguém tinha trazido do Japão para ela, que serviu uma reunião de família.

Meu pai era gerente do Banespa no Largo da Batata. A gente morava na região e ia ao mercado de Pinheiros comprar peixe e outras coisas. Só que, depois que ele sofreu um assalto, decidiu se mudar para o interior. Dos 10 aos 17, morei em Paraibuna e era muito moleca. Quando não estava com um livro, eu estava no mato, vendo bicho, vendo planta. Também pescava muito com meu pai. A gente chegava com peixes e minha mãe morria de nojo, acabava que eu os limpava.

No interior era mais difícil ainda conseguir alguns ingredientes. Mas a gente tinha uma dieta muito variada. Minha mãe trocava receita com as vizinhas, uma era italiana, outra era libanesa…

Os vizinhos ou tinham fazenda ou tinham uma horta no quintal.  Lembro da minha mãe: ‘Hoje eu quero refogar uma couve, vai na vizinha’. Então eu ia correndo, tocava a campainha, a gente descia no quintal e catava a folha de couve no pé.  

Do lado de casa tinha uma árvore de sabugueiro que, quando dava flor, ficava cheia de borboletas. Tanto que tem uma soda de sabugueiro aqui (na Japan House). É um pouco disso que eu resgato.”

 

Mudanças de rumo

“Como eu tinha facilidade para estudar, [a família aconselhou]: ‘ah, vai ser médica’. E, como eu não tinha uma vocação muito nítida, falei: ‘vou tentar’. Não sei se por sorte ou por azar, passei direto na USP. Mas no terceiro ano, quando você começa em hospital e vê o ser humano em situações muito tristes e feias, percebe que o buraco é mais embaixo. Para mim, foi pesado. Na época a USP estava com um programa de formação de cientistas e tinha criado um curso Experimental de Ciências Moleculares. Fiquei um ano nesse programa, mas comecei a perceber que a minha vocação talvez fosse mais artística. Fiz um semestre de publicidade, aí fui estudar moda. Sempre fui meio excêntrica, pintava o cabelo de azul, roxo, laranja, vermelho, gostava de me vestir diferente. Acabei trabalhando dois anos com o Fause Haten, como assistente de estilo. Depois tive a minha primeira filha e fiquei um tempo em casa. Aos poucos comecei a trabalhar como freelancer em eventos. E cada vez mais as pessoas foram me pedindo para fazer a parte gastronômica. Até que uma prima do meu marido me ofereceu para comprar a parte dela num restaurante japonês moderninho que ela tinha aberto na Vila Olímpia com chef Shin [Koike]. Eu e o Shin deixamos esse restaurante lá e abrimos outro, um japonês para japoneses. Foi quando nasceu o Aizomê.

Desde o início, 12 anos atrás, estava claro que queríamos trabalhar fora dos padrões do que era corrente em restaurante japonês. O que estava na moda eram nos modelos americanos, com sushi de salmão, cream cheese, roll califórnia. E havia uma culinária japonesa mais ou menos tradicional restrita à comunidade, na Liberdade ou em Pinheiros. No Aizomê, todo o cardápio, a base de sabores, tudo foi pensado para os japoneses e principalmente para os japoneses da região da Paulista, onde estão as grandes sedes das empresas japonesas.”


Uma nipo-brasileira na cozinha

“No começo eu fazia tanto a parte administrativa quanto a cozinha do Aizomê. Depois de cinco anos o Shin quis fazer outros projetos e de repente eu estava sozinha. Uma mulher que nem é japonesa num restaurante voltado para japoneses.
Tive que ir mais fundo ainda. Depois de cinco anos eu já tinha entendido um pouco dos sabores. No Ocidente a gente fala em doce, salgado, ácido e amargo, para os japoneses o mais importante é o quinto gosto, o umami. Todas as preparações, o dashi, que é o caldo básico, e todas as técnicas são para realçar esse umami. O maior desafio foi entender isso e entender como você extrai isso dos alimentos e das combinações. Fiz isso viajando, indo aos mercados. E pesquisando muito, estudando muito.

Os primeiros dois, três anos que eu fiquei sozinha foram para mostrar para a clientela que a qualidade e os sabores estavam todos lá ainda, para ter a chancela de que a gente continuava a ser um restaurante sério. Não foi fácil. A maioria estranhou: uma mulher…

Tive ser dura com a equipe que tinha se formado ali. Falar: ‘a gente vai continuar e agora sou eu que estou aqui’. Os profissionais da velha guarda são machistas, o machismo não vem só dos clientes.

Meu trabalho foi no sentido de ser uma chef brasileira, nipo-brasileira, buscando trazer algo autêntico nos sabores, nas preparações e nas técnicas. Isso foi uma etapa. Depois eu me senti à vontade para brincar mais e colocar meus elementos, a minha história, as referências nipo-brasileiras.”

 

Japonês autêntico e local

“Talvez um dos pilares da culinária japonesa seja trabalhar frescor, sazonalidade e produtos locais. É por isso que a minha conserva tem maxixe e chuchu. É o que a gente tem aqui. Até porque, se você vai ao Japão, os sabores, as preparações, os pratos mudam de região para região, de ilha para ilha, de cidade para cidade. Cada local busca sua própria expressão de sabores. Tem que fazer sentido no entorno.

Desde o início nunca colocamos salmão no sushi bar. Sempre procurei trabalhar com os peixes da nossa costa.

Algumas coisas eu não consigo substituir. Shoyu, a maioria que uso ainda é importado. Kombu, a gente não tem aqui, é uma alga de águas frias, o melhor realmente vem do norte do Japão. Katsuobushi (conserva seca de bonito) também, e um ou outro temperinho. Mas talvez em dois terços do que eu utilizo tento privilegiar produção local. O arroz, de variedade japonesa, vem do sul do Brasil ou do Uruguai. O missô (pasta de soja fermentada), eu alterno alguns produtores artesanais do interior de São Paulo. No meu caldo, uso como base uma sardinha que é curada aqui em Cananeia, à moda japonesa. E uso muita verdura, legume, fruta… Uma das grandes contribuições da geração dos meus avós, quando veio ao Brasil, foi na agricultura, com todo o cinturão verde e essa variedade que a gente vê hoje em dia.

 

Pesar pelo desperdício

“O Japão já teve escassez séria de alimentos. Por conta disso houve as políticas de imigração e meus avós chegaram ao Brasil. Eles têm muito forte que tudo tem que ser você aproveitado. E tudo tem que ser agradecido como uma dádiva da natureza — ou de quem plantou, de quem colheu, de quem pescou, de quem produziu aquilo. Quando você está comendo e quando você prepara uma refeição, tudo isso está atrelado. Tanto que os japoneses começam e finalizam a refeição com uma expressão de agradecimento.

Mottainai é o pesar pelo desperdício. A gente é martelado desde pequeno: ‘Mottainai! Mottainai!’ Era a bronca da minha mãe quando a gente deixava comida no prato, quando jogava fora ou não aproveitava devidamente alguma coisa, como uma roupa. Na verdade isso não é só das coisas físicas. A gente também desperdiça energia, tempo.”

 

Hospitalidade

“Omotenashi é a hospitalidade japonesa. Existe o mínimo de de serviço eficiente e atencioso que você tem que ter. Mas o conceito japonês vai além: é fazer algo com o coração, fazer porque você se importa, por se colocar no lugar do outro e querer proporcionar uma experiência única. Isso você percebe em cerimônia do chá. Em cada xícara de chá que é servida, aquele encontro é único. Por mais que você tenha outra xícara, outro encontro com as mesmas pessoas, o momento, a energia, tudo muda. Cada interação é única.” 

 

Música e moda

“Eu toco piano desde os 5 anos de idade. Quando crio um prato ou cardápio ou uma refeição, penso muito em termos de uma orquestra ou de um concerto. De uma estrutura musical. Você tem a melodia, tem o fundo, tem os crescendos, tem um ritmo.

No visual, talvez eu pegue muita referência de moda: o volume,  textura, o caimento, a proporção.”

 

Marmita da princesa

“Quando a princesa Mako veio do Japão, estava com uma agenda apertada. Aí me pediram uma encomenda especial de obentôs (marmitas) para os dias em que ela estaria em trânsito e não teria tempo de parar em nenhum lugar.

Ela queria coisas leves e simples, e eu tentei colocar alguns sabores brasileiros, como o maxixe. Porque faz sentido para mim. Na minha cozinha, tem muita gente que veio do Nordeste, e eles me trouxeram o maxixe. Eu não conhecia e adorei. Fiquei pensando como conseguiria incorporar aquilo e veio essa receita do tsukemono (conserva). Minhas clientes japonesas foram as primeiras a ficar enlouquecidas. No Japão a cultura das conservas é muito forte, os mercados têm bancas especializadas nisso, com centenas de tipos.”

Tsukemono (conserva) de maxixe e cachaça do Aizomê

RECEITA

Tsukemono de maxixe e cachaça

Ingredientes

  • 10 maxixes bem verdinhos e novinhos
  • 1 colher de sobremesa de sal
  • 1 xícara de pinga
  • ½ xícara de vinagre de arroz
  • ½ xícara de shoyu (se tiver do shoyu claro melhor)
  • 1 pedaço com cerca de 3 cm de alga kombu (opcional)
  • 5 g de katsuobushi (peixe bonito seco) (opcional)

Modo de preparo

  1. Cortar os maxixes em quatro, salpicar com o sal e deixar descansar por pelo menos uma hora.
  2. Enquanto isso levar a aguardente ao fogo forte em uma panela. Cuidado, pois as chamas podem subir bastante ao flambar o álcool.
  3. Reduzir à metade, retirar do fogo e acrescentar o vinagre e o shoyu.
  4. Lavar os maxixes para retirar o excesso de sal e secar em papel toalha.
  5. Em um recipiente colocar o pedaço de alga kombu, os maxixes e acrescentar o líquido da panela. Adicionar o katsuobushi.
  6. Deixar marinando em geladeira por pelo menos 2 dias, virando os maxixes na mistura se necessário.
  7. Para servir basta retirar os maxixes do líquido e cortar em pedaços menores. O líquido da conserva pode ser reutilizado e dura de 10 a 15 dias.

Observação: A receita pode ser feita também com chuchu novinho. Se gostar, pode acrescentar algumas rodelinhas de pimenta dedo-de-moça.

As lagostas do STF e a comida da firma

as lagostas do STF e a comida da firma
Toda essa polêmica da compra de lagostas e vinhos premiados pelo Supremo Tribunal Federal me fez lembrar dos almoços da firma que já encarei ao longo da vida. Sem saudade. Porque infelizmente, ou felizmente, escolhi o jornalismo, profissão em que a gente é treinado para ter espírito crítico, mas não em relação ao que o patrão oferece (ou oferece parcialmente) no almoço.

No meu primeiro emprego, o décimo andar, onde ficava o quilo da empresa, era conhecido como péssimo andar. Havia também um bandejão pior que o péssimo, se não me engano no quinto andar. Sinceramente não recordo se a comida em si fazia jus ao apelido. Lembro melhor das noites de sexta-feira, em que os pescoções (horas extras para fechar parte da edição do jornal do fim de semana) eram movidos a fatias de pizza gordurosa servidas sobre laudas — folhas amareladas que abrigavam ácaros desde os tempos das máquinas de escrever.

No meu último emprego em redação, dia bom era dia de copa lombo. E até que era bom mesmo, porque porco pode ter tanto valor quanto lagosta. Duro era encarar filé de frango esturricado, massa molenga, gelatina (nada de romeu e julieta brûlée como no menu dos digníssimos ministros do STF), abacaxi azedo, azeite ruim… Havia quem levasse o próprio azeite no bolso para temperar a salada, mas nunca fui dessas.

Quase dei sorte em uma multinacional de internet. Contavam que os dias na redação, animada por um chefe circulando de patinete, começavam com um café da manhã farto e variado fornecido pela empresa. Mas cheguei logo depois do boom da internet, quando o banquete matinal já tinha se transformado em pão com manteiga, e só às sextas-feiras. De qualquer forma, bem que eu prezava o pão com manteiga, principalmente quando entrava às 7h da manhã para atualizar a homepage.  

Do refeitório de uma editora, dizia-se que tinha sido planejado especialmente para os funcionários ficarem pouco tempo, tamanho o zunido das conversas. Ressoa nos meus ouvidos até hoje o barulho do dia em que derrubei minha bandeja. Constrangimento maior, só sentar perto do dono, cercada por seus seguranças, em um dos raros dias em que ele descia para comer com a galera, criando uma zona de silêncio em torno da mesa.

Após o almoço, café, sempre. Mas só depois de passar pelo teste do funcionário do café, que anotava na cabeça a ordem dos pedidos e fuzilava com o olhar quem ousasse levantar as mãos para se fazer notar.

O café era ruim, claro. Mas melhor que o das máquinas nos andares. Este só dava para tomar em caso de desespero, ou seja, todos os dias. Uma das piores experiências gustativas da minha vida foi beber de um copo cheio de café frio e cinzas de cigarro, esquecido sobre uma mesa durante o fechamento.

Aliás, senti falta de especificações sobre café no tal edital milionário de refeições do STF. Vinho, só com quatro premiações, a lagosta deve vir com manteiga queimada, os legumes precisam ser tornados ou em noisettes, cachaças só se forem “envelhecidas em barris de madeira nobre por 1 (um) ou 3 (três) anos”… Quanto ao café, nem uma palavrinha. Será que os ministros tomam qualquer café?.

Pesquisei e li que, em 2017, o STF previa gastar R$ 140 mil com a compra de 17.500 pacotes de 500 gramas de grãos “100% arábica, sabor intenso, moagem média e torração moderada”. Ok. Pesquisei um pouco mais e cheguei à notícia, deste ano, de que, no STF, as xícaras costumam sumir, exigindo compras de louça cada vez mais frequentes. Copos d’água também têm sido controlados. Será que a mesma coisa acontecia no bandejão da firma?

Procura-se gente para cuidar da merenda escolar

Estrogonofe de Janaina Rueda na merenda escolar de São Paulo
Estrogonofe de Janaina Rueda na merenda escolar (foto: reprodução do Instagram)

Está faltando mãe no poder. Foi o que me passou primeiro pela cabeça ao ouvir a chef Janaina Rueda descrever como eram as merendas em 2016, quando ela começou a refazer o cardápio das escolas estaduais de São Paulo trocando produtos industrializados por ingredientes frescos.

Eu já sabia que o projeto em que Janaina trabalhava como voluntária tinha sido suspenso de uma hora para outra, ou de um governo para o outro, no fim do ano passado. Tinha lido na Folha de S.Paulo que a chef, responsável pelo treinamento de 1.600 merendeiras em três anos, fora jogada para escanteio ao mesmo tempo em que o cardápio andou para trás. Mas uma coisa é ler, outra coisa é ouvir pessoalmente. Foi um soco no estômago escutá-la falar sobre o caso no Food Female, evento que reuniu em São Paulo mulheres que trabalham com alimentação.

Janaina Rueda - Food Female
Janaina no Food Female, evento que aconteceu na última terça na Unibes Cultural, em São Paulo

“Sabe Whiskas de gato? Muito parecido, são uns pouches que ficam fora da geladeira durante dois anos mais ou menos”, contou ela sobre a carne pré-cozida e embalada a vácuo que costumava ser servida às crianças. “Fora isso tinha feijão enlatado, almôndega enlatada com molho rosé… Falei: não vou trabalhar com esse tipo de produto porque não gostaria que meu filho comesse e não quero que os filhos do outros comam.” (E criou novos pratos com ingredientes in natura, de estrogonofe a peixada, que chegaram a 2 mil escolas.)

Ouvindo Janaina, pensei em como ter filhos é oportunidade imensa de desenvolver empatia (uma oportunidade que nem todos aproveitam). A gente sente na própria carne qualquer dor da cria, talvez por isso fique mais permeável às aflições do mundo. Quem sabe também tenha uma propensão menor a alimentar criancinhas com troços que parecem ração? Daí a ideia: colocar mais um monte de mães no poder (porque de pais com poder o mundo já está cheio).

Mas, analisando melhor, a solução não está na maternidade, não. Porque ali estava eu, na plateia da Unibes Cultural, cercada de mulheres, mães ou não, que se emocionaram com o depoimento de Janaina — uma delas, a secretária de Desenvolvimento Econômico da cidade de São Paulo, Aline Cardoso, se comprometeu a falar com o governo de Doria sobre a suspensão do trabalho da chef (a acompanhar).

Talvez as mulheres em geral tenham uma capacidade maior de empatia (um estudo da Universidade de Cambridge diz que sim; na média, é claro). E, se tem uma coisa de que o mundo precisa, é de políticos capazes de entender as necessidades dos outros, e não só as do seu clubinho. Capazes de calçar o sapato dos outros e perceber onde aperta; ou sentar na cadeirinha do refeitório e experimentar o prato do dia. Por exemplo: como você se sentiria se cogitassem trocar o molho de tomate fresco por molho em pó?

Mas aí, depois do Food Female, eu li mais: além de abandonar os menus da Janaina, o governo serviu nas escolas carne de frigorífico interditado pelo Ministério da Agricultura (depois de uma reportagem revelar isso, três funcionários do governo foram demitidos). Quer saber? Ainda sou a favor de maior presença feminina no poder, mas aqui a questão é mais básica. Ninguém precisa ter filhos ou ser mulher para cuidar da merenda. Basta ser gente, mas gente do tipo que vê números — como 3,7 milhões de alunos da rede estadual — e consegue lembrar que são crianças. Ou seja: gente que enxerga gente.

O que o suquinho doce da infância tem a ver com propaganda de cigarro

Jared eberhardt - Flickr
(Foto: Jared eberhardt / Flickr)

Quem já tentou parar de fumar sabe: se tem uma indústria boa em manter a fidelidade dos clientes, é a indústria do tabaco. E ela usou essa expertise em outro filão, o de bebidas açucaradas para crianças, segundo um artigo de pesquisadores da Universidade da Califórnia que repercutiu no The New York Times.

Na verdade, não é segredo que empresas de tabaco diversificaram seus negócios investindo em produtos infantis — Tang e Kool-Aid (Ki-Suco no Brasil) pertenceram à Philip Morris entre 1985 e 2007; a R.J. Reynolds, do cigarro Camel, vendeu o líquido doce chamado Hawaiian Punch entre 1963 e 1989. A novidade é a análise dos pesquisadores mostrando como métodos similares aos empregados para vender cigarro conquistaram a clientela mirim.

Ontem, em uma apresentação na feira Comida de Herança, no Museu da Imigração, eu falei sobre como muito do que a gente chama de comida de vó é comida que a indústria colocou na nossa casa. Cheguei a perguntar para o público: “sacolé de Tang é comida de vó”? E a resposta era sim, pelo menos na casa da avó Elzira do chef Fellipe Zanuto, do restaurante Hospedaria.

Hoje li a matéria do The New York Times sobre a ligação entre tabaco e suquinho doce e me senti ingênua. Porque, no evento, eu falei de como o marketing fisgou adultos com argumentos como praticidade, segurança, preço, benefícios para a saúde (tudo bem vitaminado!). Mas, no caso das bebidas para crianças, o golpe era mais baixo, na altura das gôndolas ao alcance de mãozinhas infantis.

Para mostrar isso, os pesquisadores da Califórnia vasculharam documentos internos das companhias, disponibilizados como parte de um acordo entre elas e estados americanos que queriam recuperar custos de saúde relacionados ao tabagismo.

“As campanhas de marketing usavam personagens de desenhos animados que apelavam para as aspirações das crianças, uma abordagem também usada para criar fidelidade a marcas de cigarros — por exemplo, o uso do Joe Camel para recrutar jovens para fumar”, descreve o estudo publicado no jornal médico The BMJ. “As empresas de tabaco também promoveram suas bebidas usando estratégias de marketing integrado que foram originalmente projetadas para vender cigarros, cercando as crianças com mensagens consistentes de produtos em casa, na loja, na escola, no estádio e no parque temático.”

Montagem do New York Times
Reprodução de montagem do The New York Times com propagandas de cigarro e bebidas infantis

A Philip Morris, depois de comprar a General Foods e, com ela, a marca Kool-Aid, resolveu reduzir a verba de propaganda voltada para mães e aumentar a voltada para crianças. “Decidimos focar o marketing nas crianças, em que sabemos que nossa força é maior”, declarou um executivo em uma conferência em 1987. Em outro momento, um diretor chama o programa de fidelidade da Kool-Aid, com distribuição de brindes, de “nossa versão do Marlboro Country Store” (o programa de fidelidade da marca de cigarros). Reuniões de sinergia, esse termo tão querido do mundo corporativo, ajudavam na troca de experiências — e bancos de dados — entre as divisões da empresa.

Já na R.J. Reynolds os registros mostram a empresa fazendo testes com donas-de-casa e crianças para avaliação de doçura, sabor e cores. “O ideal… é deixar as pessoas querendo mais”, diz um relatório.

Surpreendente? Não. Coisa do passado? “Essas técnicas continuam a ser usadas apesar do acordo da indústria para não promover dessa forma produtos não-saudáveis”, dizem os pesquisadores. Funcionava? Ô.

Ki-Suco, por exemplo, foi relançado, “de olho nos consumidores saudosos da bebida que fez parte de suas infâncias”, segundo matéria da Pequenas Empresas & Grandes Negócios. (A marca hoje não tem relação com a Philip Morris, assim como Tang não tem.).

Repito o que eu disse no bate-papo ontem. O fio da memória afetiva que, puxado, traz um mundo de experiências anteriores pode estar tanto em uma receita de cozido passada de geração em geração como em uma gelatina fantasia repleta de cubos multicoloridos aromatizados artificialmente. Ou no gelinho de Tang.

Seja qual for o caso, é interessante entender de onde vêm nossos gostos e hábitos alimentares. Não necessariamente para repeti-los.